Certificação WELL: o que mede, porque importa, e como escolher
- Inês Viana
- 24 de fev.
- 5 min de leitura
Em 2018 descobri a WELL quase por acidente. Estudava psicologia, saúde ambiental, e neuroarquitetura, fascinada pela ideia de que os espaços moldam quem somos, não apenas esteticamente, mas psicológica e fisiologicamente. A WELL surgiu numa conversa, e foi a primeira vez que vi este conhecimento sair da teoria.
A pergunta que a WELL faz é simples e raramente feita: se passamos 90% do tempo em espaços interiores, porque é que quase nunca medimos o seu impacto em nós?
O ar que respiramos, a luz a que estamos expostos, o ruído que nos rodeia - tudo isto tem consequências mensuráveis na nossa saúde, sono e capacidade de pensar. A WELL existe precisamente para tornar isso mensurável.
Mas a WELL não existe no vazio. Para perceber onde se encaixa, é preciso olhar para o quadro maior.
Os três pilares da sustentabilidade
A sustentabilidade assenta em três pilares fundamentais: ambiental, social e económico. O setor imobiliário tem investido muito no pilar ambiental: energia, carbono, eficiência de recursos. É aqui que referenciais como o BREEAM e o LEED se destacam, respondendo à pergunta: o edifício é eficiente e sustentável do ponto de vista ambiental?
O pilar social, que inclui, além de outros pontos, o impacto dos espaços nas pessoas que os habitam, tem sido historicamente o menos medido e o menos formalizado. É aqui que a certificação WELL se encaixa.
O que a Certificação WELL mede
Os seus requisitos estão organizados em 10 conceitos chave:
Ar: qualidade do ar interior, controlo de poluentes e otimização da ventilação
Água: garantia da qualidade química e biológica da água potável
Nutrição: promoção de escolhas alimentares saudáveis no espaço de trabalho
Luz: iluminação que respeita os ritmos circadianos, melhorando concentração e qualidade do sono
Movimento: design que incentiva a atividade física e promove a ergonomia
Conforto Térmico: controlo e estabilidade da temperatura para bem-estar dos ocupantes
Acústica: mitigação de ruído e privacidade sonora nos espaços
Materiais: redução da exposição a químicos tóxicos presentes em materiais de construção e mobiliário
Mente: apoio à saúde emocional, bem-estar mental e ligação com a natureza
Comunidade: inclusividade, acesso a cuidados de saúde e transparência organizacional
Não certifica apenas o que se constrói. Certifica o que se opera, todos os dias.
WELL, BREEAM e LEED: qual é a diferença?
Para perceber onde a WELL se encaixa, é útil perceber o que as outras medem.
O BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method), criado no Reino Unido, e o LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), desenvolvido nos EUA, focam-se na performance ambiental do edifício: eficiência energética, consumo de água, escolha de materiais, gestão de resíduos, impacto do local. São os referenciais mais adotados globalmente para a dimensão ambiental da sustentabilidade.
Ambos incluem uma componente de saúde e bem-estar dos ocupantes, mas de forma limitada. O tema existe, não é o centro.
A WELL parte de uma perspetiva diferente. Não mede o que o edifício consome ou produz. Mede o que o edifício entrega às pessoas que lá estão. A saúde dos ocupantes não é uma categoria entre muitas; é o ponto de partida de toda a certificação.
Dentro da WELL, existem vários caminhos
Compreendida a diferença face a outros referenciais, importa perceber que a certificação WELL não é uma solução única. Adapta-se ao tipo de edifício, à relação entre proprietário e ocupante, e ao objetivo da organização.
WELL v2 A certificação de referência da WELL. Avalia o espaço construído nos 10 conceitos, combinando requisitos de design, operação e políticas organizacionais, com verificação presencial por auditores independentes. Aplica-se em duas tipologias: Core, para edifícios com múltiplos inquilinos, onde o proprietário certifica as zonas comuns e a infraestrutura; e Owner-Occupied, para espaços ocupados maioritariamente pelo próprio proprietário ou inquilino.
WELL Performance Rating Um selo focado exclusivamente em verificação baseada em dados reais, através de sensores e testes físicos. Não avalia políticas nem design: mede a performance efetiva do edifício em qualidade do ar, água, iluminação, acústica e conforto térmico. Renovado anualmente, é uma opção para quem quer dados concretos e contínuos sobre a performance do seu espaço.
WELL Health-Safety Rating Focado em políticas e protocolos operacionais de saúde e segurança, está organizado em cinco áreas: procedimentos de limpeza e desinfeção, preparação para emergências, acesso a serviços de saúde, gestão da qualidade do ar e da água, e comunicação com os ocupantes. Para obter o selo, os espaços precisam de cumprir 15 das 21 features disponíveis. Renovado anualmente, pode ser obtido de forma independente ou como parte de uma certificação WELL completa.
WELL Equity Rating Centra-se na equidade em saúde e na inclusão nos espaços construídos e nas organizações que os gerem. Está organizado em seis áreas de ação: experiência e feedback dos utilizadores, práticas de contratação responsável, design inclusivo, benefícios e serviços de saúde, programas e espaços de suporte, e envolvimento comunitário. Para obter o selo, as organizações precisam de atingir um mínimo de 21 pontos num conjunto de mais de 40 features. Pode ser obtido de forma independente ou como milestone numa certificação WELL.
WELL at Scale Um programa de subscrição para organizações com múltiplos edifícios ou portfólios. Permite definir uma estratégia de saúde ao nível da organização, com abordagens diferenciadas por edifício. Inclui um WELL Score de portfólio, relatório anual de progresso e coaching estratégico, sem que todos os edifícios precisem de seguir o mesmo caminho ou o mesmo nível de certificação.
Cada caminho responde a uma realidade diferente. A escolha certa depende do tipo de ativo, da estratégia da organização e do que se pretende alcançar.
Uma certificação, uma estratégia
Com tantas opções disponíveis, o risco é precisamente o de certificar sem uma intenção clara. Escolher um selo porque o edifício ao lado tem, ou porque "precisamos de algo para o relatório", raramente serve um propósito concreto.
Quando parte de uma pergunta clara, sobre o ativo, o portfólio ou a estratégia de sustentabilidade da organização, a WELL tem a capacidade de colocar as pessoas no centro dessa estratégia e medir, de forma objetiva, o impacto real do espaço em quem o ocupa.
A pergunta mais importante não é "devo certificar?" Mas sim: o que é que quero melhorar, e para quem?
Perguntas frequentes
"Core & Shell" no BREEAM/LEED é a mesma coisa que "WELL Core"? Não. No BREEAM e no LEED, "Core & Shell" é uma tipologia que se refere à construção física de um edifício com múltiplos inquilinos. No WELL, "Core" refere-se ao modelo de gestão: quem certifica é o proprietário, que assume compromissos operacionais sobre as zonas comuns. O nome é parecido, mas o significado é completamente diferente.
A WELL substitui o BREEAM ou o LEED? Não. São certificações complementares que respondem a perguntas diferentes. O BREEAM e o LEED medem o impacto ambiental do edifício. A WELL mede o impacto do edifício nas pessoas. Muitos projetos obtêm as duas.



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