Sustentabilidade não é um carimbo
- Inês Viana
- 27 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 24 de fev.
Sustentabilidade tornou-se uma palavra que toda a gente usa e quase ninguém define. Cola-se a produtos, edifícios, estratégias, como se o rótulo substituísse o pensamento.
Sustentabilidade depende do contexto. Não é um rótulo que se cola a algo e pronto, está resolvido. É uma escolha informada, adequada ao uso específico que vamos dar.
Por exemplo, se vou ter um material de muito uso num espaço - alto tráfego, desgaste constante - preciso de algo que dure mais tempo, mesmo que isso signifique um impacto de carbono inicial maior. Porquê? Porque vou diluir esse impacto ao longo de muitos anos. Faz sentido naquele contexto.
Por outro lado, algo que dura para sempre pode parecer sustentável. Mas se daqui a 2-3 anos quiser mudar esse elemento, essa durabilidade torna-se um problema. Nesse caso, mais vale algo com plano de fim de vida pensado, um ciclo fechado.
Sustentabilidade não está no produto em si. Está na adequação desse produto ao contexto onde vai ser usado.
E quando falamos de contexto, não podemos ignorar o quadro em que nos movemos. A sustentabilidade assenta em três pilares interdependentes: o ambiental - o impacto do edifício no ambiente e no planeta; o social - o impacto em quem o usa e na comunidade envolvente; e o económico - a viabilidade financeira e a perceção de valor a longo prazo. Os três relacionam-se. Nenhum funciona isolado.
A confusão de rótulos não se fica pelos materiais. O Net Zero é talvez o melhor exemplo. Muitas vezes confundido com neutralidade carbónica, são abordagens fundamentalmente diferentes. Net Zero significa reduzir emissões ao máximo primeiro, compensando apenas o residual inevitável. Neutralidade carbónica pode ir direto à compensação sem fazer esse trabalho de redução. O nome parece o mesmo. A intenção não é.
O mesmo acontece com certificações. Ter um EPD (Environmental Product Declaration) documenta o impacto ambiental de um material - é essencial, mas é um ponto de partida, não uma decisão. As certificações LEED, BREEAM, WELL são ferramentas valiosas, mas não são a estratégia. Fazem parte de uma estratégia maior. Há situações onde podemos ter estratégias fortes e bem fundamentadas sem certificações.
Há também confusão frequente entre estratégia de sustentabilidade para o edificado e estratégia ESG. ESG é um framework corporativo que olha para a organização como um todo. A estratégia de um edifício pode alimentar os relatórios ESG, mas opera num nível diferente - focada no espaço físico e no seu impacto direto.
No fundo, tudo isto volta à mesma ideia: contexto importa. Sustentabilidade não é um carimbo, é um processo de escolhas informadas. Qual é o uso real deste espaço? Quanto tempo queremos que dure - e o que acontece quando já não se enquadrar? São estas perguntas que mudam a decisão.



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