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Sustentabilidade não é um carimbo

  • Foto do escritor: Inês Viana
    Inês Viana
  • há 16 horas
  • 2 min de leitura

Tenho tido várias conversas sobre sustentabilidade no edificado, e continuo a reparar nas mesmas dúvidas a surgir.


Sustentabilidade depende do contexto. Não é um rótulo que se cola a algo e pronto, está resolvido. É uma escolha informada, adequada ao uso específico que vamos dar.

Por exemplo, se vou ter um material de muito uso num espaço - alto tráfego, desgaste constante - preciso de algo que dure mais tempo, mesmo que isso signifique um impacto de carbono inicial maior. Porquê? Porque vou diluir esse impacto ao longo de muitos anos. Faz sentido naquele contexto.


Por outro lado, algo que dura para sempre pode parecer sustentável. Mas se daqui a 2-3 anos quiser mudar esse elemento, essa durabilidade torna-se um problema. Nesse caso, mais vale algo com plano de fim de vida pensado, um ciclo fechado.


Sustentabilidade não está no produto em si. Está na adequação desse produto ao contexto onde vai ser usado.

Esta ideia de contexto aplica-se também quando pensamos em certificações e credenciais. Vejo muita confusão, como se elas nos dissessem de forma definitiva que algo é sustentável. Mas não é bem assim. Ter um EPD (Environmental Product Declaration) documenta o impacto ambiental de um material, dá-nos dados importantes, mas não nos diz automaticamente que é a escolha certa para o nosso projeto. A documentação é essencial, mas é um ponto de partida para uma decisão informada, não a decisão em si.


E quando falamos de estratégias mais amplas, noto também alguma confusão entre estratégia de sustentabilidade para o edificado e estratégia ESG. ESG (Environmental, Social, Governance) é um framework corporativo que olha para a organização como um todo. A estratégia de sustentabilidade de um edifício pode alimentar os relatórios ESG, claro, mas não é a mesma coisa. Opera num nível diferente, focada no espaço físico e no seu impacto direto.


Dentro destas estratégias, as certificações - LEED, BREEAM, WELL - são ferramentas valiosas. Mas não são, por si só, a estratégia. Fazem parte de uma estratégia maior. E aqui vale a mesma pergunta: faz sentido para este projeto? Esta certificação é a mais adequada? Há situações onde podemos ter estratégias fortes e bem fundamentadas sem certificações.


E já que estamos a falar de rótulos e do que eles realmente significam, há outra confusão frequente: muitas vezes vejo o conceito de Net Zero ser confundido com neutralidade carbónica. Vale a pena clarificar.


  • Net Zero significa fazer o trabalho de reduzir emissões ao máximo primeiro e só depois compensar as emissões residuais inevitáveis através de offsets. A prioridade está sempre na redução. 


  • Neutralidade carbónica, por outro lado, pode ir direto à compensação através de offsets, sem necessariamente fazer esse trabalho de redução primeiro.


No fundo, tudo isto volta à mesma ideia: contexto importa. Sustentabilidade não é um carimbo, é um processo de escolhas informadas. E quando paramos para fazer algumas perguntas as coisas começam a clarificar.

 
 
 

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